Escrever sobre esse filme é um trabalhinho meio ingrato. Primeiro porque sobre ele já se falou de tudo: do tom de tragédia imperando no subtexto de uma situação muito simples (é um roteiro cujo poder vem de uma ação banal, o roubo de uma bicicleta), dessa força que não se sabe de onde vem e que transforma uma história italiana do pós-guerra em um filme universal, do humanismo pro qual o olhar da gente é carregado o tempo todo, em cada frame, close ou troca de cenário; de algumas sequências-chave, detalhes chocantes com que o De Sica procura ilustrar um contexto que por si só já se mostra todo angustiante, sem deixar de tocar, ao mesmo tempo, uma ternura pelos personagens que vem de uma consciência do sufoco do próprio público, do nosso cotidiano - vai ver um sufoco até de nascença. E depois, porque não dá pra se escrever sobre um filme como esse sem escarafunchar (nem que seja um pouquinho) o seu próprio histórico de sofrimento. O cinema do De Sica é tão emocional, pode tocar tão fundo a sensibilidade de quem assiste (sem nenhuma pieguice, diga-se), que ao ter que escrever sobre alguma coisa que ele dirigiu você acaba se obrigando a tomar parte da dor filmada. E aí todas as coisas se confundem: arte, vida, histórico, as dificuldades dos protagonistas e as suas próprias, sejam passadas, sejam presentes. Em resumo, a sua capacidade de lidar com a miséria humana é testada.
Da primeira vez em que eu vi o filme, lembro de não ter gostado tanto quanto gostei desta segunda, muito provavelmente porque achei demais e, naquele ano, via minha própria família numa situação, se não muito parecida, além do desagradável. Era como se visse um espelho, e isso não me chocava, mas cansava: era mais do mesmo.
A visão que eu tenho hoje tem um princípio diferente, porque é o olhar de quem superou, de certa forma, sua própria relação com a miséria, mas não por adaptação, e sim por ter se afastado dela. E é por esse motivo que eu acho muitas vezes (não sempre) incongruentes as críticas sobre o neo-realismo - e sobretudo sobre esse filme - que são feitas por trás dos óculos caríssimos dos artistas e intelectuais que nunca conheceram a situação de não ter nem como se locomover de um ponto a outro da cidade onde moram a não ser que seja a pé. Talvez a meu ver não seja um filme a ser pensado, porque pensando sobre ele não se vai chegar às mesmas conclusões que você chegaria se simplesmente o sentisse. E o De Sica sabia muito bem disso antes mesmo de começar a dirigir, porque sempre soube sondar e espelhar com inteligência a imensidão de humanidade e de amor que pode resistir no corpo de um homem, ainda que ele seja - pois é - marginalizado. É pela emoção que ele capta a atenção de quem o assiste e pelo coração que ele seduz os olhares em volta, e o que eu acho mais incrível é que essa sedução não tem absolutamente a ver com manipulação sentimentalista, mas com uma verdade interior tão sentida e doída que a obra, quando acabada, não se trai, mas se cristaliza, exatamente como o que aconteceu com o filme no decorrer do tempo.
No DVD lançado no Brasil existe uma cena, entre os extras, que me impressionou: De Sica dirigindo o garotinho na cena em que ele leva uma bofetada do pai. Enquanto a câmera filma o rosto do menino (que, lembrando, não era ator profissional, como era habitual no cinema neo-realista italiano), o diretor, em pé, grita com ele (“Chora! Chora!”), sacode os ombros dele com violência, faz que vai bater, tudo isso para aparentemente arrancar do garoto alguma interpretação que quem vê o filme superficialmente chamaria de “convincente”. Mas o que me impressiona no resultado final dessa cena não se relaciona em nada com essa palavra, e é aí que entra a contribuição do neo-realismo para o que se desdobra a partir dele no mundo todo nas décadas seguintes: é o humano em estado bruto, o sentimento que sobra enquanto substrato de uma violência histórica e social opressiva. A cena dói, é clássica e impressionante: em meio ao desespero pela busca da bicicleta roubada e da recuperação daquela fonte de sustento, pai e filho discutem e o primeiro esbofeteia o segundo. O que se segue é um dos registros mais tocantes que eu já vi sobre a fragilidade no cinema: a expressão espantada do menino, o choro que brota dele em seguida, a reação do pai que não se vê num estado de fragilidade tão diferente assim da criança, uma vez que também está vivenciando as suas bofetadas pelas ruas de Roma.
Só uma cena tão brutal e verdadeira como essa justificaria a doçura e a ternura que fazem contraponto à violência. Porque com tudo isso, eu seria capaz de usar duas linhas para costurar um subtexto para o filme: uma se chamaria violência, mas a outra, união. Para mim fica claro que essas duas noções dialogam, se fundem e se confundem ao longo do pouco mais de uma hora de filme.
Uma cidade, em qualquer lugar desse mundo, abrigou e sempre vai abrigar pessoas que estão dentro de uma história de vida determinada pela luta por alguma coisa, pelo amor, pelo desejo de progresso, de estabilidade ou de intensidade e, no meio dessa história, ela vai tomar para si a propriedade da linha muito frágil que separa (ou integra) essa violência e essa união, e é entre uma e outra coisa que estão os homens, metamorfoseando-se em ladrões quando vivem a falta ou em pais amororsos quando têm dentro de si o desespero dos ladrões.
E a grande questão que fica ali, bem no final do filme, dolorida e tépida depois das provocações do De Sica e de todas essas minúcias palmilhadas pela sensibilidade dele diante do real, pode ser justamente sobre a condição do nosso olhar, enquanto uma recepção igualmente humana da experiência cotidiana de se ver um filme: olhar para essas personagens, mergulhar na história delas, compadecer-se desse pai ou dessa criança, não seria um pouco correr atrás das nossas próprias bicicletas roubadas? E se não, se esse olhar for só um gesto no sentido da reflexão distanciada, seríamos nós os ladrões?